Sala Resenhadora – Nonplayer #2: Valeu a pena esperar quatro anos pela continuação?

Originalmente escrito por: John Lacerda

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A Sala Resenhadora é uma coluna na qual os digníssimos membros deste site falam sobre algum quadrinho, graphic novel, mangá ou livro que lemos recentemente. Porém esse não é o seu review semanal costumeiro, a Sala funciona aleatoriamente: A cada semana vamos falar sobre um quadrinho, sem a menor pretensão de falar sobre a próxima edição na semana seguinte, o que não quer dizer que o Rafael não vá fazer vários reviews da mensal do Deadpool, já que é um marvete.

Nonplayer é uma história em quadrinhos de Nate Simpson publicada pela Image Comics, a primeira edição saiu em 2011 e a história que já na época fazia total sentido a realidade atual fez um enorme sucesso, inclusive rendendo a Nate o Russ Manning ‘’Promising Newcomer’’ Award no Eisner Awards daquele ano. A HQ tem como protagonista a jovem Dana Stevens, entregadora de tamal durante o dia e jogadora obsessiva de Warriors of Jarvath no resto do tempo, porém o jogo de realidade virtual que tem tudo para ser uma escapatória perfeita começa a se tornar cada vez mais intenso quando alguns NPCs (personagens não jogáveis) começam a agir cada vez mais realisticamente.

A primeira edição captura totalmente o leitor introduzindo uma história simples que aos poucos dá indícios de um desenvolvimento mais complexo, e uma arte que pode ser minimamente descrita como fantástica. Mas problemas pessoais e de saúde acabaram atrapalhando os planos de Nate de terminar a minissérie de seis partes, tanto que a segunda edição só saiu em junho deste ano; mas pelo jeito valeu a pena esperar os últimos quatro anos pela continuação dessa história.

Já na primeira página da segunda edição somos recebidos pela mágica daquele mundo que chamou atenção de tantos leitores anos atrás. Jeph Homer, criador do Warriors of Jarvath está sendo entrevistado em uma versão virtual do prédio da Lands Unlimited – empresa criadora do jogo –, mas rapidamente Jeph conduz a entrevista através de Jarvath até chegar em uma cidadela.

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O que parecia uma desculpa para reapresentar aquele mundo virtual ao leitor se torna o compartilhamento de importantes informações sobre o quão real é a ‘’pseudo inteligência artificial’’ de Jarvath. Kimiko, a repórter do programa (FIMMOtaku, aliás) pergunta sobre as acusações do abuso de I.As de verdade, algo que parece ser tratado quase como escravidão naquele mundo.

Ao fim da entrevista somos levados de volta ao mundo real onde um robô carregador está mantendo uma mulher refém em um armazém e pela primeira vez somos apresentados ao NAIB (National Artificial Intelligence Bureau), o departamento responsável por crimes envolvendo inteligências artificiais, programas de computador e ameaças semelhantes. Por algum motivo o robô apresenta dificuldade para as armaduras da NAIB controladas a distância e para os agentes usando os ganchos auditivos que conectam o usuário ao mundo virtual e outros serviços; não muito diferente da proposta das HoloLens da Microsoft. Mas um dos agentes, Roland, que parece não gostar muito do uso excessivo de tecnologia consegue chegar perto o suficiente para incapacitar o robô e resgatar a refém, provavelmente por não estar usando um gancho. Enquanto isso Jeph confronta um dos desenvolvedores do jogo, Alan, a quem ele acusa e demite por ter dado consciência aos personagens de WoJ, mas não antes que Alan conectasse um aparelho aos servidores do jogo.

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Em vários momentos os personagens mencionam outro incidente parecido que ocorreu algum tempo atrás, mesmo que os seus superiores acreditem no envolvimento do grupo terrorista Red Sword no ataque no armazém, Roland acha que algo maior está por trás. Especialmente pelo nível do código controlando o robô que o C.U.B.E. (Cognitively Unlimited Bulwark Entity, três pessoas encarregadas de analisar todas as informações e dados que chamam atenção, Minority Report vibes) não consegui analisar, código esse que permitiu que o robô fizesse pedidos em vários restaurantes para atrasar os reforços da polícia – inclusive é o único momento em que vemos Dana nesse capítulo –.

Nas últimas páginas um dos pontos mais interessantes da última edição é explorado mais a fundo, a então dada como morta Rainha de Jarvath, Fendra acorda no sofá de Alan no mundo real no que parece ser um corpo robótico e enquanto isso ainda no reino místico do jogo, um profeta diz ao Rei Heremoth que a Rainha ainda está viva no inferno e que existe uma magia forte o suficiente para ajudá-lo a resgatá-la dos tormentos da sua assassina demoníaca (Dana).

O fato de Nate ter trabalhado na indústria de games por anos e ele mesmo ser uma game traz uma perspectiva única para Nonplayer, não só na arte de tirar o folego, mas especialmente no jeito de contar a história. Nate respeita a inteligência do leitor e não tem medo de se aprofundar nas características peculiares desse universo que chega a incomodar pela quantidade de vezes que as situações envolvendo o abuso de tecnologia se assemelha com a realidade que vivemos hoje em dia. Eu não só me deparei com Nonplayer no ano passado, então não posso falar pelas pessoas que esperaram quatro anos por essa continuação, mas a segunda edição conseguiu suprir minhas expectativas e criar ansiedade pela terceira, que com sorte vai chegar mais rápido.